#2 – Em busca do prêmio perdido

Era uma vez um garotinho curioso que adorava desmontar cacarecos. Num belo dia, ele estava desmontando um relógio e encontrou uma peça dourada que lembrava muito um microscópio (pelo menos na imaginação dele). O garoto tomou então aquela pequena peça de um relógio que não funcionava mais como seu grandioso microscópio de ouro, era o seu Prêmio Nobel por ser um grande cientista! Ele imaginou a cerimônia de entrega do troféu, pensou a roupa e planejou seu discurso de honra. Sua felicidade era gigante, ninguém do bairro tinha ganhado um prêmio desses antes. Ele ia ser lembrado para sempre como o garoto mais inteligente do mundo, ganhador do Prêmio Nobel!

Evidentemente, era preciso guardar seu glorioso prêmio em um lugar seguro, por isso, colocou ele embaixo da cama. Ninguém mexeria ali, pensou o menino. Alguns dias depois de receber o Prêmio Nobel, o grande cientista foi olhar seu microscópio de ouro mais uma vez, mas ele já não estava ali. O prêmio foi perdido. Como perguntar para a mãe se ela tinha jogado fora sua conquista, que na verdade era uma peça minúscula e inútil de metal? Ciente de que seu troféu já deveria estar soterrado por lixo no aterro sanitário e sem perspectiva de ter seu prêmio de volta, o garotinho entristeceu e engoliu o gosto amargo de ter perdido sua glória.

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Estou dando início a minha jornada como escritor através desse humilde blog, mas que fique registrado desde já minha humilde ambição: quero ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Não importa o quão improvável é eu ganhar, o que importa é eu ser feliz seguindo o que escolhi fazer, que é fazer livros. E se eu ganhar, vou ficar feliz em ter dinheiro para comprar um sítio gigante.

Publico meus textos como uma forma de enfrentamento a invisibilidade bissexual e ao limbo racial que habito. Escrevo para romper, ainda que numa escala insignificante, a normalidade do cotidiano brasileiro. Escrevo para saborear migalhas de paz em um mundo cruel, pois preciso de um pão que sacie o espírito. Preciso de uma cultura que não me mate.

Mesmo que minhas publicações não sejam lidas, tenho certeza de que quero escrever. Torço para que o exercício da escrita me ajude a viver melhor e não sei se isso se realizará. Imagino que coisas tristes vão acontecer comigo, com as pessoas que amo, com o mundo ao meu redor e não há como estar preparado para isso, mas sei que é possível atravessar a dor. Sinto que escrever me trará novas oportunidades de vida e que elas serão vitais para mim no futuro.

Peço às divindades inexistentes que meu caminho seja longo.

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