— Bom dia, doutora.
— Bom dia, Piapara. Me conta, o que está acontecendo?
— Então, eu tenho andado meio triste, meio sem rumo, com uma fraqueza que não sei explicar…
— Certo, e onde você sente essa fraqueza no corpo?
— Parece que o peito aperta, o ombro e a barriga encolhem. As pernas ficam frouxas, as mãos e os pés gelam. O pior é a cabeça, que fica avoada pensando besteira…
— Entendi. Ouvindo você falar, acho que você está com o sotaque fraco.
— E isso é grave, doutora?
— Sim, muita gente se perde na vida quando isso acontece, mas o bom é que tem cura e o tratamento é fácil. De onde você veio?
— De Piracicaba, por quê?
— Então você precisa comer milho. Pode ser milho cozido, pamonha, broa, bolinho com queijo, até uma arepa se quiser. Depois tire um cochilo na rede ouvindo choro de viola.
Quando acordar, tome uma dose de cachaça para esquentar e faça uma caipirinha com bastante limão, gelo e açúcar, isso deve te acordar. Antes de dormir, veja um filme do Mazzaropi e leia uma história da Carmela Pereira.
Se for possível, vá visitar suas avós, isso vai te fazer bem.
— Ô, dotôra! Falano assim…
Por muito tempo eu quis deixar de ser caipira, porque tinha vergonha da minha origem. Fui em busca de um diploma na universidade para ver se subia na vida e virava uma pessoa importante. Não deu certo. Encurtando a história, a melhor coisa que aprendi passando pela academia, é que a curiosidade é o que torna uma pessoa sábia.
Vendo os filmes de Amácio Mazzaropi, por indicação do meu pai, descobri um caipira que tem orgulho de ser quem é, que é esperto e brincalhão. Descobri que um caipira é mais amado por outros caipiras do que por gente da cidade grande. Ele não era amado pelos poderosos, era amado pelo povo. Mazza cresceu no interior sendo gay e sabemos que isso não é fácil, mas mesmo assim ele se tornou símbolo da sua cultura. Com todas as contradições que sua obra carrega (cheia de conservadorismo), Mazzaropi é uma inspiração gigante para mim, como ator, diretor, produtor, empresário, cantor etc.
Entendo que a cultura caipira, vista por Antônio Candido como fadada à morte por causa do avanço da urbanização sobre o interior, é uma fonte incrível de sabedoria para lidarmos com questões ambientais, políticas e sociais. Eu não queria ser caipira, pois o caipira que cresci vendo é racista, machista, conservador e muitas outras coisas ruins que me desvalorizam, mas não posso negar que essa é a cultura que me conecta ao mundo.
Não quero ser o caipira imaginado pelas piadas racistas que vemos por aí. Não quero ser um caipira do passado, LGBTfóbico e machista. Quero ser uma pessoa com raízes, mas criativa, alegre e capaz de lidar com as coisas que surgem na vida.

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