Eduardo Cazon, Julho de 2023
Escrevo sobre tipografia sendo um homem, cisgênero, bissexual, pardo e latino. Por ser quem sou, múltiplas ferramentas de opressão me beneficiam e me violentam, a depender do contexto onde estou inserido. Eu não percebia, quando entrei no estudo de tipografia, que a maior parte das minhas referências vinham principalmente da Europa e dos Estados Unidos, ou que eram de homens brancos e cis. Hoje, busco acessar referências que estejam para além desses marcadores sociais, pois nenhuma dessas pessoas se parece comigo e ter apenas referências assim torna difícil me ver nesses espaços. Achava ser impossível um rapaz do interior, como eu, fazer o que eles tinham feito, e ainda me custa acreditar que um caipira de Piracicaba (SP) tenha feito uma fonte de texto e escrito um livro sobre tipografia.
A ausência de pessoas que não são homens, cis, brancos, europeus, que estudaram e/ou trabalharam nas mais renomadas universidades ou fundições tipográficas, é um sinal de como as opressões atuam na determinação dos papéis sociais que as pessoas podem assumir. O apagamento de quem não possui esses marcadores sociais hegemônicos e que desenvolveram trabalhos fora desses eixos e dessas culturas, é uma ferramenta de opressão que limita a forma como entendemos a tipografia e sua inserção no universo social.
Ao reconhecer que a sociedade é organizada pela opressão, podemos entender como é tão difícil alguém diferente da norma dominante receber a mesma visibilidade dada às pessoas beneficiadas pelas violências sociais. No cotidiano, essas pequenas agressões vão se repetindo e estruturando vidas completamente diferentes para quem se beneficia da opressão e para quem é violentado por ela. Para um jovem negro no Brasil, é difícil tornar-se um profissional de sucesso, pois pode ser que a sociedade, que lucra com a sua espoliação, não lhe dê oportunidades de trabalho. Também pode ser que a polícia o mate, coisa que faz diariamente.
Este livro, que é uma adaptação do meu projeto de conclusão de curso na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), enfatiza discussões que publicações de design, geralmente, não fazem. Ele não é uma determinação de quais são as relações entre tipografia e política, mas sim o acúmulo da minha vivência, pesquisa e prática projetual relacionando tais temas, sendo uma proposição para olharmos a tipografia de forma a conectá-la com a realidade em que este livro está sendo escrito e sendo lido.
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